quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Um pedágio invisível na RS-734

 
Em 2007, quando deixamos São Paulo e nos mudamos para Rio Grande, existia uma estrada que ligava a centro da cidadezinha ao bairro turístico do Balneário Cassino, chamava-se RS-734, era de pista simples, por toda sua extensão plana e poucas curvas.
Era interessante pois era algo exclusivo para os moradores daqui e que servia basicamente ao veraneio. Parecia uma estradinha bucólica, em que as charretes e carroças andavam pelo acostamento, campeiros e cavalos pastavam nas margens e, nos entroncamentos de ruas, um respeito entre quem vive ali e quem passa.
A velocidade não era regulamentada por placas. As pessoas sabiam que os trechos sem casas podia-se andar a 80 km/h e, nos trechos habitados, 60 km/h seria de bom tamanho. Havendo ainda um local com uma lombada eletrônica, de 50km/h, sendo este o único lugar sinalizado por toda sua extensão de 15km. Era tão fácil dirigir assim que não tive multas durante esse ano e, por isso, consegui acumular um bom desconto de IPVA (é uma política gaúcha em que o carro sem multas ganha desconto maior no IPVA, para pagamentos a vista, claro). Nesta época nós levavamos 15 minutos para sair de casa e chegar a FURG.
 
Mas, no fim do mesmo 2007, a política governamental mudou. Alguém vendeu o peixe de que um pólo naval (a longo tempo esperado) estava chegando para se instalar na região do "Super Porto" da cidade e que isso traria muitas melhorias aos moradores locais (frente as fábricas de adubo que atuam no mesmo local!). E, com a tal promessa, a estradinha bucólica necessitou ser "re-engenherada", com um plano de obras pronto desde 2005. Tornou-se claro a necessidade de duplicação pois o volume de carro estava incompatível com o projeto inicial, de 1980. Todos queriam isso. Eu queria isso.
 
Assim, no mesmo fim de 2007, um investimento de uns 14 milhões de reais tornou-se marco em uma grande placa de propaganda governamental localizada às margem da rodovia. Felicidade estavam nos olhos daqueles que dependiam desta melhoria.. mas poucos sabiam que o trecho destinado ao investimento não era todos os 15km de sua extensão.. eram uns 9 ou 10 que tinham mais aspecto de rodovia e não avenida. Nesses retos, largos e planos quilômetros que estavam para ser readequados, constavam ainda uma ponte com linha férrea e uma ponte sobre um arroio de uns 8 metros.
Seria então uma obra fácil e rápida. E, se fossem respeitados os direitos de ir e vir dos moradores, a rodovia poderia ter acostamento largo, sinalização e iluminação adequada, além (até) de uma pequena ciclovia, para bicicletas e transeuntes. A única alteração da rodovia, por todo 2008, foi a remoção das poucas luzes da rodovia e retirada da lombada eletrônica.
" Nas curvas dessa highway": RS-734
 
Em 2009 houve um início de planificação em alguns trechos, com saibro. Mas as obras pararam e o saibro se esvaiu com a chuva, fazendo com que, em 2010, novamente ocorresse a planificação. Neste ano ganhei uma multa por velocidade de radar móvel, em uma área descampada, de pasto. Na época eu não conhecia o limite de 60km/h daquele local (que hoje é, novamente, de 80)..
Com isso perdi os 20% de desconto de IPVA, acumulado em 2007 e 2008. E nunca mais consegui recupera-los.
 
Em 2010 a empreitada conseguiu-se duplicar alguns metros mas a ligação entre a pista simples e a dupla era tão perigosa que, por fim, continuamos com apenas a pista simples. Mesmo se houvesse, por alguns dias, um trecho em que os carros utilizava pistas separadas, o fluxo seguia de fila indiana, com um carro atrás do outro. Em 2010 ganhei outra multa, ainda mais interessante, por ultrapassar um policial rodoviário militar que, de acordo com a acusação, foi efetuada em local de faixa dupla contínua, mesmo sendo a "contramão" não utilizada pelo fluxo contrário (pois estes já utilizavam o outro lado da pista, "duplicado", como citei).  Era bem no dia do meu aniversário, fala sério. Perdi novamente a possibilidade de desconto no IPVA.
1 - Doses de perigo e novidades diárias na RS-734 (2009)
2 - Doses de perigo e novidades diárias na RS-734 (2010)
 
Durante 2011, tendo a placa "propagandonal" de 2007 ganhado uma pichação, em formato de bolo de aniversário, o governo arregaçou as mangas. Rapidamente fez alguns quilômetros de estrada, utilizando até o acostamento onde fosse preciso, deixando retornos em meio de pista, desníveis e, ainda, sem sinalização. Nessa época era possível ir de manhã por um trecho da estrada e voltar por outro, pois as alterações eram constantes e, sendo mal sinalizadas, um vandalismo frente ao morador local. As pontes ainda eram simples. Não me lembro de multas neste ano mas lembro de não ter desconto no IPVA que paguem em Janeiro de 2012.
3 - Doses de perigo e novidades diárias na RS-734 (2011)
 
2013 chegou! A estrada ainda não está completamente duplicada, ainda. A ponte do trem parece nem ter projeto para ser iniciada e, a do arroio se mostrou uma obra ainda mais perigosa pois neste trecho uma pista ficou quase um metro mais alta que o outro lado, sendo estas separadas apenas por um degrau, desta dimensão. Sem placas ou retenções é uma sorte passar por ali sem bater em algo, ou atropelar um animal, ciclista, pessoa, etc.
 4 - Doses de perigo e novidades diárias na RS-734 (2013)
 
Mas, acompanhe meu raciocínio, se você leu até aqui. A estrada custou 14 milhões.. inegável isso pois o dinheiro, mesmo mal aplicado e desviado, foi gasto, mesmo que de forma corrupta, suja ou por debaixo dos panos. E, ainda assim, a estrada não está pronta.. está perigosa, mal sinalizada, mal iluminada, mal feita mas.. não está pronta. Prova disto é que o mortômetro que fica bem defronte a "sede" da polícia militar rodoviária (desta rodovia) não para de zerar, desde 2008.
Mas, como conseguir mais dinheiro público para concluir estes serviços se não temos caixa?
E o Estado do Rio Grande do Sul sabe disso.. sempre quebrado, sem fundos e mal administrado, com dívidas e realizando contratos que prejudicam aos próprios gaúchos (leia-se pedágio e agrotóxicos, por exemplo), existe a necessidade de levantar dinheiro para pagar as obras.
Uma medida seria a implementação de uma praça de pedágio no local! Passa o problema para a iniciativa privada e, daqui a 30 anos a estrada volta a população.. A Ecosul já deve ter sondado essa possibilidade. Mas novos pedágios no RS estão proibidos, além do mais agora, em plena revolução o sistema e contra copa.
 
Então o que fazer?
Colocando o Estado onde ele pode arrecadar, dentro da forma da lei!
Radares em trechos retos e planos e blitz na periferia são ótimas fontes do braço da lei. Além do valor da multa, recebe-se a parcela do IPVA que não poderá ser deduzida!
O batalhão de Rio Grande está engajado nesta tarefa e, assim, parou de monitorar as áreas de risco da pista, seja onde ela ainda é simples (SIM, SIMPLES e em 2013!!), seja quando chamada frente um engarrafamento que leva motoristas a usarem o pasto para furar fila, seja quando a pista, sem escoamento, está perigosa, seja quando um cavalo está solto em suas margens. O batalhão está apenas nos locais adequadamente mal sinalizados onde é possível arrecadar.
Olhos do Estado, na padaria e fiscalizando motoristas na RS-734 (2013)
 
E hoje, dia desta postagem, próximo das 11hrs da manhã,  (acho que) ganhei uma multa de velocidade, por radar móvel. Prepare-se para uma narrativa:
Vinha em um trecho TRIPLICADO (UAU!! Sim, são 1200m desta forma) a uns 65 km/h, conversando sobre uma matéria do Jornal Agora, sobre agrotóxicos utilizados no solo gaúcho e, que foram proibidos (porque será). Quando percebi que uma caixa preta, disfarçada de resto de construção, eram os olhos do Estado, já era tarde.. PQP!! Mas qual era a velocidade ali?? Um semáforo "piscante" que existe bem naquele ponto não estava piscando, já que não era hora de crianças se arriscarem para cruzar a pista.
Tive de percorrer os 4 quilômetros até o retorno e voltar pois o dia parecia ter começado ruim.
Parei o carro e saí com o celular na mão, para tirar fotos.. Mas, cadê o guardinha? Cadê a viatura? Será que vou levar um tiro por tirar fotos? Click, click, click, click..
Cadê as placas de velocidade ou de radar presente? Ah, tem uma do outro lado da pista! 80km/h, ufa! "Pérai", vou mais longe, bater uma panorâmica.. nenhuma outra placa.. nenhum aviso de radares, apenas do tal semáforo piscante. ACHEI!.. bem no chão! Quase apagada pois foi pintada com tinta errada, que não aguenta tráfego de carros. Dizia "S0".. será 50? Apagado assim pode ser 60.. ou até 80, porque não? mas 50 o que? Metros para o semáforo? Será a velocidade? Mas do outro lado da pista, no mesmo local, tem uma redondinha, de pé, a 80km/h.. Não pode ser.. Além do que, quando se entra nessa rodovia, neste trecho triplicado (UAU!!), indo nesta direção, existe uma boa placa avisando sobre velocidades e, em nenhuma das faixas consta os 50km/h.
Você escolhe a faixa. Mas, por quanto tempo?
 
Vou bater foto.. "seguro morreu de velho"...
Click, click, click.. Enquanto encarno o paparazzi, alguns carros que passam no local freiam forte.. devem ter sido surpreendidos, como eu.
Finalmente saí um policial, lá de dentro da padaria que fica também neste local... Eu fico com medo, não quero ser preso, nem nada.. PAZ, sou da PAZ..
"Quer ver como funciona?" diz o uniforme..
Eu não quero ver nada, tenho um TCC para fazer ainda hoje.
 
A medida que me afasto chega uma viatura, da mesma corporação do guardinha da padaria.. o carro vinha lá da praia! E começam a desarmar o disfarce eletrônico da tal caixa preta.
Depois de arrecadar, é hora de vazar.
 
A mim restou apenas escrever aqui.. infelizmente.. para desabafar. Daqui a alguns dias pode chegar um aviso, sobre minha imprudência.. tentarei entrar com recurso mas, já considerei o IPVA integral em Janeiro de 2014.
 
O que tem isso a ver com um pedágio invisível, né? Bem, desde 2008, somados, eu já paguei alguns mil reais para o Estado, em função do uso e das condições da rodovia e, até o momento não houve nenhuma melhora efetiva na pista.
E isso não lhe parece cópia de uma das praças privadas que existem por aí?
 
Sem fiscalização nos trechos perigosos; rola de tudo.
Até ultrapassar pelo acostamento da ESQUERDA!
 
 

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