sábado, 7 de maio de 2011

João Pessoa à Salvador velejando

Ok, ok..

Uma amiga de João Pessoa me indicou atualizar o Blog com mais freqüência.. Afinal, muita gente tem vontade de se lançar em águas, a bordo de veleiros e as informações daqui podem ajudar nessa decisão! Mas estive atarefado e, esqueci as fotos desta viagem em minha cidade natal..

Então tá.. A viagem que fiz, a quase um mês atrás, é na verdade minha primeira viagem em vários aspectos; primeira longa viagem a bordo (navio "cvc" não conta), primeira viagem em mar aberto, primeira viagem de veleiro... Aqui no Sul eu sou mais para marinheiro de lagoa, com margem em todos os lados, por mais que não as veja, dando sensação de segurança.
Então, lógico, a sensação de frio na barriga esteve comigo durante todas as 90 horas de navegação!

A parte mais difícil, em uma navegação, é soltar as amarras. Quem vai ao mar sabe disto.. É a sensação de estar saindo de casa e esquecendo algo, sabe? Parece que nunca se está pronto! Para se ter uma idéia, nos abastecemos com 80 litros de água em galões, uma compra de comida de quase 400 reais e mais 180 litros de diesel (usamos 30L, R$40 e 90L respectivamente). E quando você lembra do que esta adiante, para enfrentar (ou seja, toda a natureza, totalmente fora de nosso controle).. as coisas parecem ficar ainda mais difícil.  Mas, acho que esse receio é bom.. deixa os sentidos aparentemente afiados. E acho que no dia que perder esse sentimento, tenho certeza, vou ao mar tão confiante que vai dar merd..

Enfim, soltar as amarras da Jacaré Village foi complicado também pois outros dois veleiros estavam saindo na mesma hora, aproveitando o estofo da maré alta... isso as 6:30 da manhã. Saíram conosco os veleiros alemães Kire e Witchcraft. Eles rumo ao Caribe e nós rumo à Salvador, 4 dias adiante, pelas nossas previões. Para fazer bonito e mostrar que sabíamos o que estávamos fazendo, saímos desde o canal, com os panos em cima:


Jacaré à popa

Logo que passamos a última baliza encarnada viramos a proa rumo sul e desfrutamos de vento pleno, leste, por boa parte do dia e pouca ondulação. A ansiedade foi tanta que não tivemos fome durante todo o dia.. apenas sede e muito protetor solar! Preparamos nosso fiel amigo Raymarine (grande Ray!) para trabalhar e, iniciamos a troca de turnos, já se preparando para a noite ( e quem disse que se consegue dormir, neste primeiro dia)... próximos a meia noite estávamos na altura do porto do Sauípe; atenção a outras embarcações!!


velas cheias


Amanhece o dia e o vento começa fraco, vindo pela alheta.. ao longo do dia nossa proa começa a ser voltada para dentro da costa, rumo à Salvador e isso acaba colocando o vento ainda mais de popa.. e cada vez mais fraco. Sorte que veleiros ketch possuem duas velas mais a genoa.. junto com o motor íamos levando a média de 5,5knots. Nada de comer.. a fome está lá no horizonte e, no barco, apenas suco e algumas frutas. Começa a noite e estamos quase no través de Maceió. Novamente atenção a movimentação de navios e pesqueiros. Nossos turnos, em duplas, de duas em duas horas fazem a noite passar rápido e sem muito cansaço.


Ray mantendo o rumo da tripulação
Velas sobre a noite


Amanheçe mais uma bela manhã! O vento é pífio e o barco vai praticamente a motor, dando jibes nas duas velas.. os socos incomodam e tentamos amarras as retrancas.. não adianta muito.. o vento fica girando a nossa popa.. próximos do almoço, mas ainda com a tripulação sem fome, o vento firma pela popa, fraco mas ideal para armar o balão do Celestial. Com mezena, mestra e (enorme) balão, o veleiro de quase 6 toneladas decola para picos de 11,7knots (ok, pode ser na surfada!). Em uma ou duas horas o vento vai ficando mais forte e começa a girar, passando rapidamente pela alheta de boreste, ponto onde resolvemos parar com a brincadeira de soltar balão... o vento vai ficando ainda mais forte. Era uma baixa pressão lá da Amazônia.. chegando ao mar. O burro da mestra se rompe, num dos muitos jibes.. o concerto, por nós, é eficiente mas logo reparamos que o ponto do burro, na retranca, está com rachaduras e a própria retranca inverga com o vento..
Recolhemos as velas e soltamos um pouco da genoa... o amigo Ray faz barulho, reclama o esforço e por vezes perde o rumo.. o veleiro ainda vai fazendo 6 a 7 knots.. no continente, sobre o Brasil, uma parede degradê, cinza, avança e, o Sol se esconde as 16horas.. previsão de mal tempo pela frente!! Tripulação séria.. pensativa.


Balonismo no mar, permitido.


As 19 já está escuro e os turnos começam... à nossa frente, raios e chuva.. no clarão dos raios percebe-se a ausência de linha no horizonte. Quanta água! Onde será que ela termina?
Com o chuva o vento cessa.. vai a zero e ficamos atento ao barômetro. A sensação de escuridão absoluta, junto com a impossibilidade de se abrir bem os olhos, devido a quantidade de água que desabava sobre nossas cabeças, não permite olhar a finco o que vem pela frente. 
Acabamos de passar Alagoas.. o que não é uma boa notícia pois é o condomínio das plataformas de petróleo e seus oleodutos..  avistamos algumas.. "iluminosas" e pomposas, castelos no meio do mar e da tempestade.. Será que alguém está nos vendo? A chuva nos deixa com frio e ensopados.. mas não temos como colocar a outra dupla no turno.. estamos pilhados e loucos para ver quando o aguaceiro vai acabar!
O dia deveria começar as 5 horas, com o Sol nascendo no horizonte.. mas ele só conseguiu mostrar sua cara bem depois, quando algumas nuvens pela popa resolveram de dissipar.. a frente ainda temos bons paredões cinzas... que vão embora. 


Chuva do passado


Pelo GPS temos previsão de chegada.. ainda faltam dois ou três way-points mas se cada espaçamento entre eles é cerca de 5 horas, a meia noite estaríamos no farol de Salvador. E foi o que aconteceu.. o dia esquentou e tivemos nosso primeiro almoço; miojo com milhos e ervilhas enlatadas, sucos e frutas! As 3 velas voltam para cima com a mestra poupada de muita pressão. O sentimento de euforia era evidente mas contido.. só se ganha depois da chegada e não antes! A tarde já temos a grande Salvador a boreste.. resolvemos aproximar o veleiro da costa para observar com mais calma.. linda visão da cidade.. o Sol se põe e luzes frenéticas, amarelas e vermelhas, andam pela orla.. parecem a 200km por hora.. que pressa!! 


Sol lá em Salvador


O aeroporto internacional nos brinda com alguns aviões decolando, passando bem sobre nossas cabeças... parece que estamos voltando ao mundo, depois de uma expedição extra-terrena. E vamos indo, 5knots.. A frente do farol da Barra, decidimos passar bem ao largo, pois existe um banco de areia que pode formar boas ondas.. e, não sendo nativos da região, não ia valer a pena economizar uma hora só para passar entre o banco e o farol.. além do que, o banco está balizado e não é tão afastado da cidade. 
Dentro da Baía de Todos os Santos, o GPS acusa o percurso:


Data log


Como é tarde, quase 1 da manhã, entramos na primeira Marina.. a Bahia Marina. Mesmo de noite, as enormes lanchas brancas, estáticas, colocam mais medo do que a chuva anterior. E se raspássemos em alguma.. cadê o raio do marinheiro da marinha??? Quando ele apareçe, nos coloca no meio de dois iates que chamei de Gigante e Montanha, em homenagem a meus dogs do Sul.. Fomos dormir depois de um bom banho quente!! De manhã, a constatação; a Bahia vai bem, muito bem, mesmo que apenas para alguns.


Bahia rica, muito rica.


A bagunça de nosso veleiro nos deixa evidentemente fora do grupo dos Flutuantes Brancos e Estáticos, Cheios de Marinheiros, Lavando Tudo, ao Som do Samba. Embora a riqueza do local, com milhões sob a água, seja um sonho deslumbrante.. não é recomendado sair andando da tal marina (a realidade está na esquina).. então saímos de barco mesmo.. uma mensalidade, alí na água, pode sair o preço de uma moto na terra.. que loucura! O vizinho TENAB, lugar para onde fomos, cheio de extrangeiros é mais módico.. uma vaga na água pode comprar uma moto na terra.. mas em 3 meses de estadia. Iemanjá e Neptuno devem ganhar parte desse din din de barbada.. afinal o jardim é deles! Mas esse trapiche do TENAB é próximo dos correios, bancos, restaurantes e do elevador lacerda.. é o lugar mais conveniente para atracar e para iniciar os reparos.


TENAB


Eu passo pouco tempo em Salvador.. como já estava perdendo aulas na faculdade, não quis ver o que a baiana tem ou nao tem.. voei para casa, sul do Sul, depois de 50 dias longe... querendo velejar de novo, mas depois de um bom descanso!!

3 comentários:

  1. Viajei junto com vcs.Que medo da chuva.....ainda bem que as velas pedindo proteção para vcs estavam acesas e a postos durante toda a viagem. Vc confia no pessoal e barco e eu confio em Deus.Adorei cada minuto e vivi com vc toda coragem que vcs demonstraram.Espero que dê para eu respirar um pouco até a próxima. Beijos Marcia

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  2. Fala Tiago!!! Parabens pela Velejada, pena eu nào estar por ai na epoca para dar uma mão a voces.
    Manda noticia ok,

    abraços,

    luciano zinn
    www.ribeiraadventureclub.blogspot.com

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  3. mecla11@hotmail.com23 de novembro de 2011 20:00

    Adorei seu diário!
    Como vc escreve e descreve bem .
    Parabéns, qdo li, vc me levou lá.

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É bom podermos nos entender :D